O livro a Política da Prudência, de Russell Kirk, é uma ótima introdução ao conservadorismo político e cultural. Além de reunir 18 textos de conferências feitas por Kirk, entre 1986 e 1991, a obra trata de algumas ideias centrais do autor sobre a preservação dos princípios que T.S. Eliot (1888-1965) chamou de “coisas permanentes” e exibe a conclusão de sua carreira de quase meio século. Uma verdadeira obra de arte. Ao iniciar a leitura do livro, é possível sentir a grandeza deste ser. Um homem verdadeiramente entregue aos princípios do conservadorismo. Segundo Alex Catharino, autor do prefácio do livro, a grande erudição de Russell Kirk, impressionou diversos autores renomados com o já citado T.S. Eliot, Donald G. Davidson, Wilhelm Ropke, Eric Voegelin, Ray Bradbury e Flannery O'Connor, com os quais, inclusive, Kirk manteve contato e trocou correspondência.
Há um excepcional brilhantismo intelectual em Russell Kirk. Foi um homem reconhecido largamente por seus inúmeros prêmios pelas obras acadêmicas e os doze doutorados honoris causa. O título de Doutor Honoris Causa é atribuído à personalidade que se tenha distinguido pelo saber ou pela atuação em prol das artes, das ciências, da filosofia, das letras ou do melhor entendimento entre os povos. Russel Kirk também recebeu uma grande honra de Ronal Regan, em 1989, sendo condecorado com a “Ordem de Mérito da Presidência por Eminentes Préstimos aos Estados Unidos”. Na ocasião ele afirmou: “Como profeta do conservadorismo norte-americano, Russel Kirk ensinou e inspirou uma geração. De sua sublime e elevada posição em Piety Hill, penetrou profundamente nas raízes dos valores norte-americanos, escrevendo e editando trabalhos centrais de filosofia política. Sua contribuição intelectual foi um profundo ato de patriotismo”.
Apesar de minha inépcia para compreender com precisão algumas linhas, principalmente relacionadas ao passado histórico (pois ainda preciso estudar muito), acredito que o primeiro contato com esta profunda obra, despertou algo adormecido dentro de mim - me deu uma luz. Como já disse uma vez, já tive uma mentalidade muito idiota. Por influência acadêmica, deixei-me levar pelas asneiras esquerdistas e até mesmo acreditei que a ilusão do comunismo/ socialismo seria possível. Em tempo, acordei. Depois de ler o livro “
O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”, de
Olavo de Carvalho ,
Esquerda Caviar, de Rodrigo Constantino, Ensaio sobre a pobreza, de Alex de Tocqueville, entre outros livros, e vasculhar a internet lendo inúmeros artigos e assistindo incontáveis vídeos, comecei a me desintoxicar de tantas mentiras absorvidas ao longo dos anos. E ainda estou no processo de arrancar os venenos ocultos na minha mente. Preciso estudar, estudar e estudar. Bom, mas pelo menos tenho certeza que esquerdismo tem cura. Percebi que Nelson Rodrigues tinha razão ao dizer: “No Brasil, o marxismo adquiriu uma forma difusa, volatizada, atmosférica. É-se marxista sem estudar, sem pensar, sem ler, sem escrever, apenas respirando.” Por experiência própria, é claro.
Formei-me em jornalismo com muita angústia, pois era obrigada a assistir aulas de sociologia e geopolítica que eram praticamente doutrinação marxista, mas como esse mundo exige o título, terminei o curso. Quando folheei as primeiras páginas da Política da Prudência meu olhos brilhavam e meu coração pulsava. Eu pensei: “Isso é a verdade”. Nunca decidi me tornar conservadora, mas ao ler este livro fica claro que sou conservadora. Então acho que muitas pessoas não sabem que são conservadoras e também precisam se descobrir como tal. Por isso, quero compartilhar alguns trechos deste maravilhoso livro.
É interessante também ressaltar que o pensamento kirkeano foi além das muralhas petrificadas da política e abrangeu os campos da história, educação, filosofia, economia, direito, até mesmo o campo literário. Ele escreveu cerca de 3 mil artigos de opinião, 800 artigos acadêmicos, mais de 200 resenhas de livros, 68 prefácios, 23 livros e 3 romances. Foi o mais respeitado ícone do conservadorismo no Estados Unidos, contudo, não deixou-se sequer uma vez ser seduzido pelas facilidades das riquezas materiais, sempre preferindo cultivar sua vida intelectual plena. Dedicou-se à escrita, longe da anarquia da cidade e viveu tranquilo numa pequena comunidade, na Vila de Mecosta. Lá, além de escrever, também ajudou a preservar a beleza natural do lugar, plantando árvores para as próximas gerações.
"Russel Kirk viveu uma existência integrada, na qual os escritos e a atuação pública harmonizaram-se, numa concepção mística e sacramental da realidade, com a vida privada. Mais do que como intelectual público, o conservador Kirk dá testemunho de suas convicções pelo modo como desempenhou na própria vida os papéis de marido, pai de quatro meninas, amigo e orientador de vários jovens pesquisadores, o que torna o conhecimento na imaginação kirkeana inseparável da própria vida do autor.” (2013, pg. 22. CATHARINO, Alex. In: Política da Prudência.)
Antes de entramos no pensamento do autor, é preciso enfatizar o quanto nós ainda somos ignorantes em termos de bibliografia conservadora aqui no Brasil e o quanto este nome (conservadorismo) foi - e ainda vem sendo - deturpado pela história recontada pelos adeptos da
revolução cultural gramsciana, principalmente pela mídia. Não é a toa que muita gente ainda tem preconceito com pessoas que se denominam conservadores, pois acham que estas são "representantes do mal”. Isso não é verdade. O conservadorismo é, na realidade, um sistema de pensamento muito coerente que valoriza a família, o amor, a tradição, a ordem, a harmonia, a clareza das regras e muita prudência nas mudanças, onde o passado é visto como um depósito de sabedoria. E que quando começamos a estudar, percebemos o quanto ainda precisamos aprender sobre o assunto. Como diz Russel Kirk: "Um conservador não é, por definição, um egoísta ou uma pessoa estúpida; em vez disso, ele é uma pessoa que acredita que há alguma coisa em nossa vida que vale a pena salvar." Conservadorismo, na verdade, é uma palavra com um significado antigo e honrado, mas que foi distorcido pela manipulação dos últimos anos.
Durante anos aprendemos a acreditar que é possível criar o céu na terra. "A crença no dogma democrático como garantia de maior igualdade social destruiu inúmeros padrões meritocrático e nivelou os indivíduos por baixo, em condições inferiores às potencialidades humanas, ampliando o controle estatal na sociedade, e criando, assim, não uma única classe de iguais, mas duas classes divididas por um abismo: a dos privilegiados burocratas governamentais e a da pacata multidão amorfa. O anseio por progresso material ilimitado, alimentado pelo espírito da ganância e da avareza, produziu um gigantesco sistema industrial desumanizante e massificante, controlado pela burocracia corporativa e pela regulamentação e tributação estatais, que reprimem o pleno desenvolvimento das livres forças empreendedoras." (KIRK, Russel. 2013, p. 43)
Para Kirk, o conservadorismo seria a própria negação da ideologia. Mas o que é ideologia para o autor? Em resumo, seria uma fórmula política que promete um paraíso terreno à humanidade. O ideólogo promete a salvação neste mundo, declarando, ardentemente, que não existe outro tipo de realidade. Eric Voegelin e Gerhart Niemeyer, explicaram que os ideólogos "imanentizam os símbolos da transcendência”, ou seja, corrompem a visão da graça que se pode alcançar após a morte, com falsas promessas de completa felicidade neste reino - conhecido como matrix. A ideologia cria alguns vícios, como por exemplo: colocar no lugar da salvação após a morte, a salvação coletiva na terra por meio de revolução intolerante e violenta. A visão do ideólogo também é limitada e os adeptos competem entre si a fidelidade à sua verdade absoluta, onde denunciam os desviantes e traidores da ortodoxia partidária. Isso nos lembra o Partido dos Trabalhadores, não é mesmo? Fazem guerra até entre eles mesmos. Mesmo causando ruína em toda parte, a ideologia ainda exerce fascínio na maior parte do mundo. O marxismo, por exemplo, é uma das ideologias mais poderosas do mundo, mas vem perdendo força nos últimos anos. Existem ainda outras ideologia como o feminismo, fascismo, nazismo, sindicalismo, anarquismo e outras mais.
A ideologia também é vista como o ópio de alguns intelectuais que não se sentem mais ligados à comunidade nem à religião, então, pedem às ideologias progressistas que tomem conta de sua alma. Kirk afirma o seguinte: “A ideologia oferece uma imitação de religião e uma filosofia fraudulenta, confortando, dessa forma, aqueles que perderam, ou que nunca tiveram, uma fé religiosa genuína e aqueles que não possuem inteligência suficiente para aprender filosofia de verdade”. A ideologia nega até mesmo a consciência e o poder de decisão dos seres humanos. Para Kirk, ideologia é uma doença, não a cura. Para ele o que precisa ser transmitido é a prudência política, não beligerância política. “A ideologia é a política da irracionalidade apaixonada”, diz Kirk.
Assim sendo, o conservadorismo para Kirk, assim como apresentado por Burke, ao contrário da ideologia, tenta preservar os princípios fundamentais apreendidos pela experiência histórica e que, orientada pela virtude da prudência, aceita, por reformas gradativas as mudanças culturais ou sociais inerentes à dinâmica histórica. Em termos teóricos, os três pilares da ordem na modernidade, segundo o autor, são pensamento de Edmund Burke, Samuel Johnson e Adam Smith, que apresentam a defesa das coisas permanentes nos campos da moral, letras, política e economia. Ser prudente significa ser judicioso, cauto e sagaz. Platão ensinou que no estadista, a prudência é uma das primeiras virtudes. O prudente tem consciência que a natureza humana é imperfeita e que a “justiça" agressiva na política acaba em massacre. O político prudente sabe que o propósito original do estado é manter a paz. O autor usa a palavra conservador como sinônimo de político prudente. Deste modo, é possível perceber que a mentalidade conservadora e a ideológica gravitam em pólos opostos.
Nas palavras de Kirk: "O conservadorismo é um importante conceito social para todo aquele que deseja justiça igualitária e liberdade pessoal e todos os amáveis caminhos antigos da humanidade. O conservadorismo não é simplesmente uma defesa do “capitalismo”. Para o autor, o propósito da vida do conservador é o amor, pois um "conservador esclarecido não acredita que o fim ou o propósito da vida seja a competição, o sucesso, o prazer, a longevidade, o poder ou as posses. Acredita, ou contrário, que o propósito da vida é justamente o amor. Sabe que a sociedade justa e ordenada é aquela em que o amor nos governa, tanto quanto o amor pode nos reger neste mundo de dores; e sabe que a sociedade anárquica ou tirânica é aquela em que o amor está corrompido.”
O pensamento conservador, parece ser o que mais respeita a complexidade e o caráter heterogêneo da experiência humana. Dentro do pensamento kirkeano, os homens vêm a este mundo para lutar, para sofrer, para combater o mal que está no próximo e neles mesmos, e para ansiar pelo triunfo do amor. Vêm ao mundo para viver como homens, e para morrer como homens. Buscam preservar a sociedade que permite aos homens atingir a própria humanidade, e não aquela que os mantêm presos aos laços da infância perpétua.
Ao defender uma visão ampla da sociedade e do conhecimento humano, Kirk, explicou por meio de dez princípios a essência do pensamento conservador.
Leia
aqui os dez princípios.
Além desses princípios, neste livro Kirk apresenta também o que ele considera os dez conservadores exemplares. São eles, em ordem decrescente de antiguidade:
- Primeiro - Marco Túlio Cícero (106-43 a.C).
- Segundo - O imperador estoico, Marco Aurélio (121- 180)
- Terceiro - Samuel Johnson (1709 - 1784)
- Quarto - Sir Walter Scott (1771 - 1832)
- Quinto - John Randolph de Roanoke (1773 - 1833)
- Sexto - Nathaniel Hawthorne (1804 - 1864)
- Sétimo - Theodore Roosevelt (1858 - 1919)
- Oitavo - Joseph Conrad (1857 - 1924)
- Nono - Richard M. Weaver (1910 - 1963)
- Décimo - Freya Stark (1893 - 1993)
Nos dias de hoje, o filósofo britânico
Roger Scruton, é um dos conservadores ingleses da segunda metade do Séc. XX que mais se aproximam das concepções kirkeanas de conservadorismo.
E o que pensam os conservadores?
As posições conservadores mais proeminentes são a seguintes:
- Estado laico não significa estado ateu
- As drogas precisam continuar banidas
- Os empreendedores são a força vital da economia
- Os pais devem ter o direito de educar seus filhos em casa
- Cada pessoa é a única responsável pelo seu destino
- O aborto, em qualquer fase da gestão, deve ser mantido como crime
- O cidadão honesto deve ter o direito de portar armas
- A família tradicional é a base de qualquer sociedade e seu desmantelamento provoca grandes efeitos danosos a sociedade
- O Estado de Direito não pode ser submetido aos desejos de determinados grupos
- As cotas raciais são um erro pois é uma grave lesão ao princípio constitucional da igualdade
- Deve haver tolerância zero contra criminalidade
Então, como age um conservador no Brasil?
O conservador, como ensinou Russell Kirk, não pode ser um formulador de ideias abstratas e subjetivas, mas um prudente observador das realidades moral, cultural, política e econômica que o cerca, buscando eliminar, por reformas gradativas, os erros legados pelo passado, e preservando os aspectos positivos da tradição. Alex Catharino, afirma que a cultura brasileira está muito associada aos erros do patrimonialismo ibérico, do cientificismo herdado do pensamento positivista e do intervencionismo econômico defendido tanto por keynesianos quanto por marxistas, criando, assim, uma forma de religião civil do Estado que devemos buscar superar. No plano econômico o conservador deverá, na maioria dos casos, assumir a defesa do livre mercado feita pelos libertários. Todavia, temos que ser intransigentes na luta pela preservação de certos princípios inalienáveis, herdados de nossa tradição católica, dentre os quais se destacam o reconhecimento da religião como principal fundamento da moral e da cultura, a defesa da vida humana desde a concepção até a morte natural da pessoa, a importância das liberdades individuais como pré-condição da vida moral e principal motor do desenvolvimento social, bem como o respeito aos direitos de propriedade, tanto material quanto intelectual.
Russell Kirk estava sempre preocupado com a busca da verdade e, na defesa da tradição em movimento, demonstrou que o conservador não pode criar um futuro utópico. Assim, a política da prudência é pautada pela experiência acumulada ao longo da história. Por mais que nosso ego julgue ao contrário, a experiência da humanidade é mais sábia do que nós mesmos. Russell Kirk ensina o conservador a conhecer o próprio eu, restaurando a ordem interna da alma e, assim, colaborando para restauração da ordem externa da sociedade.